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Um Grito de Liberdade

“Há uma coisa que os homens, não sei por que motivo, não têm sequer forças para desejar. É a liberdade, bem tão grande e tão agradável que, quando se perde, todos os males sobrevêm, e sem ela todos os outros bens, corrompidos pela servidão, perdem inteiramente o gosto e o sabor”

Étienne de La Boétie, em Discurso da Servidão Voluntária (1576)

“Há um olhar que sabe discernir o certo do errado e o errado do certo […] o ‘olhar dos olhos’ não enxerga a essência, somente a forma”

Nilton Border, em A Alma Imoral (1998)

Em seu livro, Discurso da Servidão Voluntária, de 1576, La Boétie descreve, de forma um tanto quanto paradoxal, a obediência consentida dos “oprimidos” como uma estratégia de resistir sem violência aos tiranos, com a recusa consentida à própria escravidão. De forma análoga, mais de quatro séculos depois, em 1998, o rabino Nilton Border, em A Alma Imoral, aproxima-se das ideias de Boétie, não no contexto oprimido-tirano, mas sim na análise corpo-alma como um complexo traído-traidor. Neste contexto o corpo segue os aspectos da conformidade e da adaptação, que se recusa a obedecer e colaborar com a alma imoral, a qual se rebela e se modifica constantemente.

O que se passa nos textos de La Boétie e Border supracitados pode ser analisado como uma relação consciente-inconsciente. O consciente, neste caso, é a “forma” que se adapta a realidade dos meios, da cultura, da sociedade, da religião etc. O consciente é, portanto, um servidor não transgressor que se adequa e “serve” a moral e os bons costumes. O consciente é o traidor, ou o corpo. Já o inconsciente, ou o servidor transgressor e cheio de desejos, é o traído (reprimido), ou a alma imoral, que procura se manifestar tentando romper com tradições, costumes, imposições sociais etc. Como resultado das realizações do consciente e das transgressões não materializadas do inconsciente, para o total conhecimento de si e dos outros, é que se forma o homem. Conhece-te a ti mesmo, um aforismo grego, demonstrando a importância da consciência e do princípio do alcance moral para o autoconhecimento, não é mais válido. É preciso, assim, “deixar materializar” a alma imoral, o traído, ou o inconsciente. Ou seja, tornar-se livre do repressor livrando-se das imposições do meio (cultural, religioso, social etc.), trazendo, portanto, o recalcado para a consciência e tornando consciente o que está inconsciente.

É neste contexto consciente-inconsciente, ou no olhar que sabe discernir “o certo do errado e o errado do certo”, é que se desenrola a mente humana. As ideias de Sigmund Freud, tal como apresentadas em “A Interpretação dos Sonhos”, de 1900:

“O sonho é a realização (disfarçada) de um desejo (reprimido, recalcado)”

não deixam dúvidas quanto as forças dos desejos no inconsciente do homem. Dahisteria e origem da Psicanálise, até a existência do pré-consciente e inconsciente, passando por sintomas, traumas, recalques, catexia, resistência, desejos, pulsão, libido e conflitos psíquicos.

Dito de outra forma, por meio da necessidade de aprender, entender e superar seus próprios conflitos internos, com as amarras impostas por padrões e exigências sociais, culturais, religiosas etc., o inconsciente-consciente traz à tona a necessidade de se estabelecer e compreender quais são os reais aspectos da construção do sujeito. Ou seja, da construção do sujeito que em sonhos demonstra realizações (disfarçadas) de desejos (reprimidos e recalcados) de liberdade. Um sujeito com reservatório de desejos (libidos) que são forçados, voluntariamente ou não, a permanecer em escondidos, mas pulsando no inconsciente. Aliás, um sujeito que resiste em transformar em consciente o que está inconsciente. Uma resistência que incomoda e maltrata, mas que, seguindo as ideias de Boétie em relação aos desejos: vê na falta de liberdade a origem de muitos males e, segundo Freud, de um conjunto de sintomas acumulados. Enfim, um sujeito que deve trazer o recalcado para o consciente, mas não sem antes confrontar as dualidades “traído-traidor” e “servidor-opressor” para superar a má vivência da própria liberdade.

Um misto de comportamentos, descobertas, tensões, ações, frustrações, conquistas, conflitos, angústias, desconfortos e, principalmente, da busca da liberdade do Conhece-te com o Cura-te a ti mesmo. A busca angustiante de conhecer e buscar a própria essência, mesmo que o sujeito, com o auxílio ou não do analista, ainda não tenha o desejo consciente dessa busca.

Rodrigo. F. Bianchi- Estudante de Psicanálise
instagram: https://www.instagram.com/rfbufop/

Um comentário

  1. Flávia Carvalho

    Texto fantástico, como sempre! Parabéns, caro colega Rodrigo! Parabéns EPC!

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