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Imagens e estados de autoilusão

Espelhos estão presentes no nosso dia-a-dia. São eles que nos recebem pelas manhãs quando nos lavamos ao acordar; que nos levam à transformação ou à sensação de limpeza e beleza, quando nos maquiamos ou barbearmos; que nos levam a olharmos para trás, em retrovisores automobilísticos; ou ainda que nos levam às incoerências de olharmos pra baixo e enxergarmos lá em cima, quando observamos perplexos a superfície espelhada de um lago e vemos o céu bem abaixo de nós. Consequentemente, espelhos (ou espelhamentos)nos levam às imagens de um novo ou transformado eu e às diversas maneiras de olhar para trás e para frente, para baixo e para cima. São, sem dúvida, objetos, instrumentos ou situações que nos levam às várias formas de experimentação e sensação.

Espelhos também nos levam às imagens desconfiguradas de um dado objetivo, como, por exemplo, as imagens observadas em espelhos esféricos. Afinal, quem nunca olhou na superfície de uma colher e se viu ausente, distante, desfocado, pequeníssimo, ou de ponta cabeça?

Para a mente humana as imagens que criamos de nós, dos outros, das coisas e das situações podem assumir representações típicas daquelas observadas pelos espelhos distorcidos, ou seja, são desconfiguradas e às vezes desfocadas. Tais imagens apresentam-se como canais de manifestações diretas ou indiretas, atemporais ou não, do assujeitamento. Vejam, por exemplo, a necessidade de afirmação da Rainha Má, em Branca Neve e os Sete Anões, com a sua famosa pergunta:

“Espelho, espelho meu, existe alguém mais bonita do que eu?”

ou a necessidade da moça escondida nas árvores, em A Moura Torta, de Monteiro Lobato, que julga ver no reflexo de uma princesa seu rosto desagradável, exclamando ao príncipe inocente:

“Você custou tanto a vir me buscar!”

Logo, é na significação de imagens formadas nos espelhos da vida que passamos a nos observar interna, externa e diariamente, ou a observar melhor os outros e o meio que vivemos. É a partir dessas imagens distorcidas que acompanhamos nossas mudanças, influenciadas ou não pelos outros e pelo meio, e usamos isso para descrever e referenciar desejos, sentimentos e personalidades. Mesmo que tudo isso seja consequência do simbólico e imaginário, ou seja, de representações, ou aqui referenciado, de nossos próprios estados de autoilusão.

Neste contexto, os espelhos distorcidos podem ser considerados objetos simbólicos, ou uma metáfora à mente, pois entrelaçam imagens representativas de vontades, angústias, frustrações e, sobretudo, de influências voluntárias ou involuntárias do meio e dos outros em nós. Como teias em uma trama interminável, formando um véu para os olhos, aqui referenciando a Deusa Védica das ilusões e dos sonhos – Deusa Maya, as imagens desconfiguradas e desfocadas se entrelaçam em contínuas mudanças, e nos enganam diariamente.

Como resultado: vivenciamos imagens distorcidas, e essas nos levam a estágios flutuantes de felicidade, tristeza, frustrações, conquistas, agonias e tantos outros sentimentos e verdades que acreditamos serem reais e pertencentes a nós, mas que são, de fato, resultados do imaginário no consciente, isto é, da formação de um “falso eu”, ou apenas “do eu”.

Como ilustração, tomemos o surrealismo da traição das pinturas de René Magritte, de 1928 e 1929, que impactou o mundo com suas famosas pinturas e, em especial, a de um cachimbo intitulada:

Ceci n´est pas une pipe, ou

Isso não é um cachimbo

que nos instiga a aceitar que a imagem de um cachimbo não é o cachimbo. É, assim, nas imagens de espelhos distorcidos, a partir de autoilusões consentidas, voluntária ou involuntariamente, que a formação do eu acontece.

Dito de outra forma: é a partir de imagens conscientes que criamos situações e sentimentos para o sujeito, ou seja, próprios do imaginário na formação do eu e, consequentemente, influentes no distanciamento Sujeito-Eu. Espelhos distorcidos são, portanto, a metáfora da mente que altera a visão do inconsciente (sujeito) para o consciente (eu). Essa é a maneira como nos vemos diariamente onde a mente se posiciona fazendo-nos acreditar que as imagens são autenticas e não autoilusões.

Em resumo:

  • Metaforicamente, espelhos funcionam como instrumentos da mente, ou seja, meios de transformação diária das pulsões do inconsciente em sentimentos e desejosdistorcidos, desfocados, alterados, influenciados e equivocados. Os espelhos levam o sujeito (inconsciente) ao eu (consciente);
  • Imagens dos espelhos distorcidos, por sua vez, formam o Ego, pois são o resultado de nossos estados de autoilusão, ou seja, da forma como nos vemos, vivemos e sentimos;
  • Por fim, os Estados de Ilusão influenciam diretamente a distância Sujeito-Eu. Tal distância é alterada diariamente numa constante dependência espaço (meio) – tempo. Os estados de ilusão são o reflexo (ou espelhamentos) de como gerenciamos o inconsciente-consciente na mente.

No viés da Psicanálise, em uma possível interpretação do Estado ou Estádio do Espelho de Lacan,

o eu é formado por imagens distorcidas do sujeito que potencializam ou atenuam constantemente nossos estados de autoilusão,

onde os estágios da vida são representados pelas diversas formas de autoilusão do sujeito, as quais são criadas pela nossa mente.

Rodrigo. F. Bianchi –  Estudante de Psicanálise
Instagram: @rfbufop

4 Comments

  1. Tatiana Wippel

    Deixo uma provocação desta frase: “Os espelhos levam o sujeito (inconsciente) ao eu (consciente)”. Não seria o contrário?
    Não seria a imagem consciente do espelho que nos desvelaria o sujeito inconsciente?
    Abraços,
    Tatiana Wippel

  2. Cleiton Aparecido Ferraz

    A imagem de nós, vista de um espelho trincado, quebrado e até mesmo num simples caco deste, nos revela o quão incompleto somos diante do ‘eu’.

  3. Sandra Rufino

    Entendi que a nossa mente funciona como o reflexo do espelho, mostrando o que desejamos ver na maioria das vezes, em alguns casos. É nessa lógica!?

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